“A viuvinha desamparada” (ou “As CATASTRÓFICAS alterações na pensão por morte parte 1”)

Alessandra Strazzi

Alessandra Strazzi

Advogada | OAB/SP 321.795

Advogada por profissão, Previdenciarista por vocação e Blogueira por paixão, Autora dos blogs “Adblogando“ e "Desmistificando". Formada pela Universidade Estadual Paulista / UNESP.

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“A viuvinha desamparada” (ou “As CATASTRÓFICAS alterações na pensão por morte parte 1”)

 

Em 30 de dezembro de 2014 foi publicada a Medida Provisória nº 664/2014 que alterou profundamente os benefícios previdenciários de pensão por morte, auxílio-reclusão e auxílio-doença. Nesta série de artigos ilustrarei, através de histórias fictícias, as principais alterações na pensão por morte*.

 

Serão três artigos, cada um com um “conto”:

  1. “A viuvinha desamparada”
  2. “Pedro não previu a sua morte”
  3. O combinado não sai caro”

 

*Obs.: todas as alterações na pensão por morte também aplicam-se ao auxílio-reclusão.

 

A viuvinha desamparada

 

Conto nº 1 – “A viuvinha desamparada

 

Gabriel e Manoela namoravam desde a adolescência. Formavam um casal perfeito, companheiros de verdade um do outro. Assim que se casaram, Gabriel recebeu uma ótima promoção no emprego. Ele passaria a ganhar muito mais, mas seria transferido para uma cidade muito distante, mais de mil quilômetros de distância de onde moravam.

 

Conversaram e decidiram que, como o novo salário seria muito bom, eles topariam. Mas, para isso, Manoela precisou sair de seu emprego. Ela era concursada da Prefeitura e ganhava um salário razoável, mas o novo salário de Gabriel conseguiria suprir isso. Chegando lá, ela tentaria um emprego como advogada, já que era formada em Direito, ou um concurso na região.

 

Um ano se passou e não houve concurso para a região onde morava o casal. Manoela também não conseguiu um emprego na iniciativa privada. Todos os salários oferecidos para iniciantes na carreira eram irrisórios. Teve até o caso de um escritório que ofereceu a “fortuna” de R$ 400,00 por mês* (e isso porque estavam impressionados com o currículo dela, com várias especializações).

 

Declaração de hipossuficiência (ou declaração de pobreza)

 

Depois dessa história do emprego de R$ 400,00, Gabriel ficou muito puto irritado. Pensou: “Ela largou tudo para me acompanhar até aqui. Não vou fazê-la sujeitar-se a esse salário de fome!”. Acreditando na capacidade de Manoela, pegou suas economias e montou um escritório de advocacia para ela. Coisa pequena, apenas para começar, já que não tinham uma reserva muito grande (toda a renda do casal estava comprometida com o financiamento da casa e do carro). Ele seguraria as pontas até o escritório começar a dar retorno, o que demoraria cerca de três a cinco anos.

 

Manoela começou a advogar, mas estava muito complicado. Nossa, como era difícil não conhecer ninguém na região, não ter contatos… Mas não desistiu. Ela estava fechando contrato com seu segundo cliente quando recebeu a notícia…

 

Gabriel estava internado. O “resfriado” que ele havia pegado no fim de semana era na verdade uma gripe muito forte. Evoluiu rapidamente para uma infecção generalizada. O ritmo de trabalho estressante de Gabriel diminuíra muito a resistência de seu organismo. Infelizmente, ele não resistiu e veio a óbito.

 

Em meio à dor e ao sofrimento, Manoela nem pensou em requerer pensão por morte. Foi só quando as contas começaram a apertar que ela tomou providências. Já haviam-se passado mais de 30 dias do óbito e ela sabia que só receberia a pensão a partir do dia do pedido feito ao INSS, e não da data do óbito, pois entendia um pouquinho de Direito Previdenciário.

 

O que Manoela não sabia eram das mudanças trazidas pela Medida Provisória nº 664 de 2014. Seu benefício foi negado nos termos do parágrafo 2º do artigo 74 da Lei 8.213/91. Desesperada, foi ler a lei, que dizia:

 

Art. 74, § 2º O cônjuge, companheiro ou companheira não terá direito ao benefício da pensão por morte se o casamento ou o início da união estável tiver ocorrido há menos de dois anos da data do óbito do instituidor do benefício, salvo nos casos em que:

I – o óbito do segurado seja decorrente de acidente posterior ao casamento ou ao início da união estável; ou

II – o cônjuge, o companheiro ou a companheira for considerado incapaz e insuscetível de reabilitação para o exercício de atividade remunerada que lhe garanta subsistência, mediante exame médico-pericial a cargo do INSS, por doença ou acidente ocorrido após o casamento ou início da união estável e anterior ao óbito.

 

alterações na pensão por morte

 

“Meus Deus, como assim? Então o casamento ou união estável precisa ter pelo menos dois anos para o cônjuge ter direito à pensão por morte? Por que isso?”, pensou Manoela. Continuou estudando e resolveu ler a “exposição de motivos” da medida provisória que, em um dos trechos, dizia assim:

 

 “De igual maneira, é possível a formalização de relações afetivas, seja pelo casamento ou pela união estável, de pessoas mais idosas ou mesmo acometidas de doenças terminais, com o objetivo exclusivo de que o benefício previdenciário recebido pelo segurado em vida seja transferido a outra pessoa. Ocorre que a pensão por morte não tem a natureza de verba transmissível por herança e tais uniões desvirtuam a natureza da previdência social e a cobertura dos riscos determinados pela Constituição Federal, uma vez que a sua única finalidade é de garantir a perpetuação do benefício recebido em vida para outra pessoa, ainda que os laços afetivos não existissem em vida com intensidade de, se não fosse a questão previdenciária, justificar a formação de tal relação. Para corrigir tais distorções se propõe que formalização de casamento ou união estável só gerem o direito a pensão caso tais eventos tenham ocorrido 2 anos antes da morte do segurado, ressalvados o caso de invalidez do cônjuge, companheiro ou companheira após o início do casamento ou união estável, e a morte do segurado decorrente de acidente.

 

Manoela chegou à conclusão que, para o Governo, todo mundo é fraudador. Então agora, porque existem alguns casos isolados de fraude, todos seriam prejudicados? Não seria mais justo cancelar a pensão por morte nos casos provados de farsas? E o princípio da presunção de inocência? Ah, é… esse só é valido no Direito Penal, para os crimes.

 

Analisando as alterações feitas pela medida provisória, ela viu que agora a pensão por morte, para os cônjuges e conviventes, não era mais vitalícia na maior parte dos casos. O tempo que a pessoa vai receber pensão por morte (se tiver direito) varia de acordo com a “expectativa de sobrevida”, de acordo com uma tabela que está na Lei 8.213, em seu artigo 77, parágravo 5º. Essa expectativa de sobrevida, que é quanto tempo mais a pessoa provavelmente vai viver, é calculada pelo IBGE, através da mesma tabela do infame fator previdenciário. A pensão por morte agora poderia durar 3, 6, 9, 12 ou 15 anos, ou ser vitalícia, dependente da idade do cônjuge / convivente.

 

Continuou lendo a exposição de motivos da medida provisória e revoltou-se com mais um trecho (bom, na verdade ela achou tudo um absurdo, mas vamos focar somente na história):

 

“(…) Tal proposta visa resguardar a concessão desse benefício aos dependentes do servidor que, de fato, tenham tido convívio familiar que gere a dependência ou relação econômica com o segurado e que afaste eventuais desvirtuamento na concessão desse benefício.”

 

“Então agora é o INSS quem faz o nosso planejamento familiar?!”, esbravejou enquanto fechava violentamente seu laptop.

 

Manoela não entendia muito de Direito Previdenciário, mas sabia muito de Direito Constitucional. Ela seria, ela própria, sua terceira cliente.

 

 Fim do conto nº 1

 

[*A história de Manoela e Gabriel é fictícia, mas salário de R$ 400,00 foi retirado de uma história verdadeira, de uma colega e amiga minha. E era um emprego em período integral, para liderar uma equipe em uma cidade no interior de São Paulo. Acho que estou precisando escrever uma artigo sobre o mercado de trabalho para advogado empregado…]

 

Não deixe o seu futuro financeiro depender do Governo

 

Como estamos vendo, existe uma tendência do Governo em diminuir os Direitos Previdenciários dos brasileiros. Esta, na verdade, é uma tendência mundial para fazer frente aos custos de financiamento dos sistemas previdenciários, aliado ao aumento da expectativa de vida da população.

 

Por isso, precisamos nos educar financeiramente para podermos planejar nosso futuro financeiro e termos uma aposentadoria mais confortável.

 

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As 5 Etapas do Planejamento Financeiro, escrito pelo professor Elisson de Andrade, é um ótimo livro que foi eleito pela EXAME um dos 10 melhores livros sobre Finanças Pessoais. Ensina passo a passo como gerenciar suas finanças pessoais de forma inteligente. 1) Etapa do Convencimento Pessoal, 2) Etapa do Conhecimento Financeiro, 3) Etapa da Definição de Objetivos, 4) Etapa da Mudança de Hábitos e 5) Etapa dos Investimentos.

 

O professor Elisson recentemente lançou o livro “Tópicos Avançados em Educação Financeira“. O material é composto de 5 Volumes em formato eletrônico, que tratam de diversos temas importantes sobre a administração do próprio dinheiro:

1) Problemas financeiros e seus reflexos do ambiente de trabalho
2) A importância do desenvolvimento de competência financeira
3) Programas de educação financeira: características e desafios
4) Uma análise sobre como os consumidores decidem
5) Como mudar hábitos financeiros

 

Indico esse material por ser uma das obras mais completas sobre Educação Financeira em formato eletrônico, no Brasil, tendo sido elaborado com base em mais de 70 artigos científicos e livros. Sem contar na já comprovada competência do Professor Elisson de Andrade, doutor em economia pela USP. Além disso, o produto possui garantia de 30 dias: se nesse período você não ficar satisfeito com o material, poderá pedir seu dinheiro de volta.

 

Aguardem cenas do próximo capítulo…

 

Aviso importante

Para a publicação (ou republicação) deste artigo em veículos virtuais (sites, e-mails), é condição essencial deixar todas as citações e links do texto, e informar o link da publicação original, e para veículos físicos de comunicação, a autorização por escrito.

A exclusão de qualquer do artigo ou de seus links desautoriza a publicação.

 

FONTES:

Medida provisória nº 664/2014Lei 8.213/91Constituição FederalIdade mínima para as aposentadorias: luzes e sombrasAulas de atualização em Direito Previdenciário da Legale.

Como passei em concurso público, trabalhando, cuidando de casa, com marido e duas filhas

Valda Prata

Valda Prata

Funcionária pública da Justiça Federal

Funcionária pública e protetora dos animais nas horas vagas. Presidente da FAUNA (Francisco de Assis União Protetora dos Animais) de São José do Rio Preto/SP.

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Como passei em concurso público, trabalhando, cuidando de casa, com marido e duas filhas

 

Há tempos, eu queria escrever um artigo sobre concurso público, com dicas ou histórias (do tipo “como passei em concurso público”), mas eu não poderia fazê-lo, já que nunca passei em um concurso (pois não presto – após decidir advogar, me apaixonei pela profissão e estou focada somente nela).

 

Por isso, resolvi pedir para as pessoas que eu conheço e passaram em concurso para escreverem sobre a experiência delas e motivar os meus leitores concurseiros!

 

O texto abaixo foi escrito pela minha mãe, a pedido meu. E ela arrasou! A partir de agora, sempre trarei artigos dela!

 

Leia até o fim, pois trago uma dica de estudos não muito comum para quem está prestando concurso.

 

Como passei em concurso público, trabalhando, cuidando de casa, com marido e duas filhas

 

Como passei em concurso público, trabalhando, cuidando de casa, com marido e duas filhas

 

Final de 1992, casada, com duas filhas (6 e 8 anos), trabalhando como caixa de banco, fiquei sabendo que haveria concurso para Justiça Federal que seria inaugurada em nossa cidade.

 

Eu não tinha quase nenhuma prática em concurso, mas sempre tive vontade de ser aprovada em um para poder ter estabilidade. No banco, vivíamos com o fantasma da demissão. Era comum a notícia de que o banco faria corte de pessoal. Além disso, eu tinha um chefe terrivelmente sem educação, que não tinha noção nenhuma de liderança. Era comum gritar com os subalternos.

 

Então tratei de me inscrever no concurso. O salário seria melhor e eu poderia ter a tão sonhada estabilidade, além de me livrar do chefe general. Escolhi o cargo de Auxiliar Judiciário que necessitava ter o 2º grau completo. As matérias seriam Português e Noções de Direito. Depois, se aprovada, teria a prova de datilografia. Eu sempre gostei de português e tinha um bom conhecimento desta matéria. Também era ótima datilógrafa, mas não tinha quase nenhum conhecimento em Direito, pois era formada em Administração de Empresas.

 

Prova de datilografia em concurso público

Para os novinhos: esta é uma máquina de datilografia.

 

O segredo

 

A prova seria em breve.Comprei uma apostila do concurso e comecei a estudar. O tempo era escasso, mas eu estava bastante motivada. Meus motivos: ganhar mais, ter minha estabilidade e me livrar do chefe capataz. Eu precisava passar.

 

E aqui está o “segredo”: a motivação. Sem ela, eu não teria passado. Eu tinha aquela garra de quem quer realmente passar. Eu deixei muito passeio e várias horas de sono para estudar. Também deixei um pouco a casa de lado. Não ficava esfregando. Dava aquela ajeitada e pronto. Minha prioridade naquele momento era passar no concurso e eu estava focada nisso.

 

Como passei em concurso público cuidando de casa e trabalhando

 

Portanto, se você tem motivação (cada um tem a sua), se você realmente quer passar, você acorda de madrugada, deixa o passeio e vai estudar. Sem motivação, no primeiro obstáculo, você desiste.

 

Como estudei para o concurso público

 

Eu estudei apenas pela apostila. Muita gente achava aquela apostila ruim, mas eu digo: se você souber tudo, ou quase tudo, o que está em uma apostila que foi feita em cima do edital do concurso, você passa. Estou falando de um concurso de nível médio.

 

É quase certo que os momentos de desânimo e cansaço virão, mas não desista! Lembre-se de seus motivos. São eles que te seguram.

 

Concilie estudos e lazer

 

Mas também não precisa deixar todo o lazer. Não precisa ficar naquela: se vai na balada, fica com a consciência pesada. Se fica em casa estudando, fica sem concentração, pensando no que está perdendo na balada.

 

Conciliar diversão com estudos

Minha mãe usando a palavra “balada”. Arrasou!

 

Dá para conciliar. Apenas diminua o lazer e administre o tempo, mas coloque o concurso como prioridade. Pense que, depois que passar, vai ter muitas outras oportunidades de lazer.

 

Quando passei no concurso ouvi muito: “Passou? Nossa! Que sorte!”. Mas, não se passa em concurso por sorte. Eu me preparei e conquistei meu objetivo. Motivação, foco e estudo – está é a fórmula, que não é mágica.

 

Sorte x preparação

“Sorte?! Beijinho no ombro para o seu recalque!”

 

Então, trate de sentar a bundinha na cadeira e estudar. Boa sorte! Ops, boa CONQUISTA!

 

Valda Prata

 

Se você gostou da história da minha mãe, deixe um comentário abaixo. Adoro o feedback dos meus leitores!

 

Dica de estudos para concurso público

 

Se você está estudando para concurso público, veja o  vídeo preparado por Paulo Sette (publicidade). Ele traz dicas de estudos pouco conhecidas e promete dobrar suas chances de passar já no próximo concurso público.

 

Conheça também outros cursos, materiais de estudo e produtos que indico.

 

Crédito de imagens: Pixabay, Freepik.

Quando a pessoa morre quem paga as dívidas?

Alessandra Strazzi

Alessandra Strazzi

Advogada | OAB/SP 321.795

Advogada por profissão, Previdenciarista por vocação e Blogueira por paixão, Autora dos blogs “Adblogando“ e "Desmistificando". Formada pela Universidade Estadual Paulista / UNESP.

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Quando a pessoa morre quem paga as dívidas?

 

Meu pai morreu e deixou uma dívida. Terei que pagá-la? Neste artigo, procuro esclarecer esta dúvida. Não deixe de ler o artigo inteiro, pois é necessário entender algumas coisinhas antes de responder a esta pergunta, OK?

 

Além disso, ao fim do artigo, trago uma dica para quem está devendo e precisa aprender a controlar suas finanças para sair do vermelho.

 

[Leia também: Paguei uma dívida prescrita. Posso pedir meu dinheiro de volta?]

 

Sumário

1) Introdução
– Patrimônio
– Espólio
2) Pagamento das dívidas
3) Filhos herdam as dívidas dos pais? É possível herdar dívidas?
– Exemplos
4) Cartões de crédito
5) Crédito consignado
6) Contratos de Financiamento
7) Como aprender a controlar suas finanças e sair do vermelho

 

Pagamento das dívidas do falecido

 

1) Introdução

 

Para entender melhor a questão das dívidas de falecidos, antes é necessário explicar rapidamente o que significa patrimônio, espólio e apresentar algumas definições superficiais.

 

[Leia também: Como funciona a busca e apreensão de veículo financiado?]

 

Patrimônio

 

Patrimônio é o conjunto de bens, direitos e obrigações de uma pessoa.

 

Bens são valores materiais ou imateriais que podem ser objeto de uma relação de direito, como por exemplo: uma casa, um carro, uma televisão, mercadorias de uma empresa, máquinas, etc.

 

Direitos são bens de uma pessoa que estão em posse de terceiros, por exemplo: um crédito, uma venda a prazo, dinheiro no banco, etc.

 

Obrigações são bens de terceiros que estão em posse da pessoa, por exemplo: compra a prazo, empréstimo, etc. Ou seja, as dívidas.

 

Em linguagem contábil, bens e direitos são o ATIVO e as obrigações são o PASSIVO. Patrimônio líquido é a diferença entre o ativo e o passivo.

 

Patrimônio e espólio

 

Espólio

 

Quando alguém falece, seu patrimônio passa a ser chamado de espólio.

 

Ou seja, espólio é o conjunto de bens, direitos e obrigações que integram o patrimônio deixado pelo “de cujus” (falecido).

 

O espólio será partilhado entre os herdeiros no inventário e é representando pelo inventariante.

 

Inventariante é aquele que administra a herança durante o inventário até a partilha dos bens.

 

2) Pagamento das dívidas

 

Em caso de pessoas vivas é o seu patrimônio que responde pelas suas dívidas. Igualmente, em caso de pessoas falecidas será o espólio o responsável por suas dívidas. Abaixo transcrevo alguns artigos que falam sobre isso.

 

O artigo 391 do Código Civil diz:

“Pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens do devedor”.

 

Já o art. 597 do Código de Processo Civil diz:

“O espólio responde pelas dívidas do falecido; mas, feita a partilha, cada herdeiro responde por elas na proporção da parte que na herança lhe coube.”

 

Dívidas de falecidos

 

3) Filhos herdam as dívidas dos pais? É possível herdar dívidas?

 

Dessa forma, concluímos que quando uma pessoa morre quem paga as dívidas é o espólio.

 

Ou seja, os herdeiros jamais possuem obrigação de pagar, eles próprios, as dívidas do de cujus (pessoa falecida); os filhos NÃO herdam dividas dos pais. Não existe herança de dívidas.

 

É o patrimônio da pessoa falecida que será responsável pelo pagamento das dívidas, não importando que seja insuficiente. Vejamos exemplos:

 

Exemplo 1 – Dívida menor que os recursos

 

Obrigações= R$ 40.000,00
Bens e Direitos= R$ 100.000,00
Patrimônio líquido = R$ 60.000,00
Herança transmitida = R$ 60.000,00

 

Uma pessoa falece deixando uma dívida de R$ 40.000,00 (quarenta mil reais) e bens e direitos no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais). A dívida será paga e os R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) restantes serão divididos entre os herdeiros, de acordo com as normas do Código Civil.

 

Exemplo 2 – Dívida igual aos recursos

 

Obrigações= R$ 100.000,00
Bens e Direitos = R$ 100.000,00
Patrimônio líquido = R$ 0
Herança transmitida = R$ 0

 

Uma pessoa falece deixando uma dívida de R$ 100.000,00 (cem mil reais) e bens e direitos no valor de de R$ 100.000,00 (cem mil reais). A dívida será paga e os herdeiros nada receberão.

 

Exemplo 3 – Dívida maior que os recursos

 

Obrigações= R$ 140.000,00
Bens e Direitos = R$ 100.000,00
Patrimônio líquido = – R$ 40.000,00
Herança transmitida = R$ 0

 

Uma pessoa falece deixando uma dívida de R$ 140.000,00 (cento e quarenta mil reais) e bens e direitos no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais). A dívida será parcialmente paga (apenas cem mil reais) e os herdeiros nada receberão. O restante da dívida (quarenta mil reais) não deverá ser pago pelos herdeiros, tornando-se um prejuízo para o credor. O mesmo acontece se alguém falecer deixando dívidas, mas nenhum patrimônio.

 

O professor José Fernando Simão ensina que “A expressão correta é a seguinte: os herdeiros respondem no limite das forças da herança, mas não com seu patrimônio próprio.”

 

4) Cartões de crédito

 

Atenção! É importante fazer o cancelamento dos cartões de crédito do de cujus, pois a multa pelo atraso no pagamento poderá ser cobrada do espólio, diminuindo o seu patrimônio líquido e prejudicando a herança.

 

Cartão de crédito de falecido

 

5) Crédito consignado

 

As dívidas de crédito consignado (empréstimo feito com desconto direto em folha de pagamento) é diferente.

 

A regra aplicada neste caso (Lei 1.046/50) é ainda mais benéfica: os empréstimos consignados em folha são extintos quando o consignante (pessoa que pediu o empréstimo) falece. Ou seja, nem a herança, muito menos os herdeiros, responderão por esta dívida. Veja:

 

Lei 1.046/50, Art. 16. Ocorrido o falecimento do consignante, ficará extinta a dívida do empréstimo feito mediante simples garantia da consignação em fôlha.

 

6) Contratos de financiamento

 

Caso o falecido houvesse feito um financiamento, é importante verificar se no contrato não havia a previsão de um seguro por morte ou invalidez permanente (também conhecido como seguro prestamista), caso em que a seguradora será responsável pelo saldo da dívida (dependendo do contrato).

 

7) Como aprender a controlar suas finanças e sair do vermelho

 

As 5 Etapas do Planejamento Financeiro (link de afiliado), escrito pelo professor Elisson de Andrade, é um ótimo livro que foi eleito pela EXAME um dos 10 melhores livros sobre Finanças Pessoais. Ensina passo a passo como gerenciar suas finanças pessoais de forma inteligente:

1) Etapa do Convencimento Pessoal,
2) Etapa do Conhecimento Financeiro,
3) Etapa da Definição de Objetivos,
4) Etapa da Mudança de Hábitos e
5) Etapa dos Investimentos.

 

Indico esse material por ser uma das obras mais completas sobre Educação Financeira em formato eletrônico, no Brasil, tendo sido elaborado com base em mais de 70 artigos científicos e livros. Sem contar na já comprovada competência do Professor Elisson de Andrade, doutor em economia pela USP. Além disso, o produto possui garantia de 30 dias: se nesse período você não ficar satisfeito com o material, poderá pedir seu dinheiro de volta. Clique no link para conhecer o livro.

 

Quando a pessoa morre quem paga as dívidas

 

FONTES: Código Civil, Código de Processo Civil, Lei 1.046/50, Página do Professor Simão, DireitoNet, Portal de Auditoria, Jusbrasil.

Crédito de imagens: Pixabay, Photl.

Como passei na OAB – 3 dicas pessoais para passar no Exame de Ordem! (e uma dica bônus)

Alessandra Strazzi

Alessandra Strazzi

Advogada | OAB/SP 321.795

Advogada por profissão, Previdenciarista por vocação e Blogueira por paixão, Autora dos blogs “Adblogando“ e "Desmistificando". Formada pela Universidade Estadual Paulista / UNESP.

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Como passei na OAB – 3 dicas pessoais para passar no Exame de Ordem! (e uma dica bônus)

 

Percebi que meu blog tem atraído diversos estudantes de Direito que procuram, por meio dos meus textos simples, esclarecer dúvidas que surgem durante a faculdade. Muitos desses leitores até mesmo me procuraram por e-mail à procura de dicas sobre como eu passei na OAB. Por isso, resolvi escrever este artigo.

 

[Leia também: Exame de ordem: qual a área jurídica mais fácil na 2ª fase?]

 

Inicialmente, acho importante esclarecer que eu colei grau em janeiro de 2.012 e, em seguida, prestei o exame. Foi o VI EXAME DE ORDEM UNIFICADO OAB/FGV (2011.3). Passei de primeira!

 

Neste exame, foram aprovados 25.912 candidatos entre 101.936 inscritos em todo o país, o que dá um índice de aprovação de 25,4%. Ou seja, somente pouco mais de ¼ dos candidatos que prestaram a prova, passaram…

 

Foi similar ao resultado do último exame de ordem já concluído (XIV Exame de Ordem): apenas 25,11% de todos os candidatos inscritos poderão exercer a advocacia. Um pouco assustador, não é?

 

Mas o Exame de Ordem não é nenhum bicho de sete cabeças, isso eu garanto! E, neste artigo eu vou compartilhar com vocês, através de dicas pessoais, como me preparei e passei na temida prova da OAB. Ao final trarei uma dica bônus, que, acredito, ajudará muitas pessoas.

 

Dica nº 1 – Estude e faça estágio durante a faculdade

 

Esta dica só é válida se você ainda está frequentando o curso de Direito, obviamente. Eu recomendo a você, de todo o coração, que mantenha uma rotina saudável de estudos durante a faculdade, construindo conhecimento aos poucos e constantemente.

 

Construir conhecimento para passar na OAB

 

O objetivo principal do Exame é “filtrar” apenas bacharéis minimamente preparados para exercer a advocacia. Não é interesse da OAB, nem da sociedade (nem mesmo seu, acredite) que existam advogados despreparados atuando, prejudicando os direitos dos clientes, a imagem da Ordem e a da classe dos Advogados de forma geral.

 

E o estágio, além de ser obrigatório em algumas faculdades, é extremamente útil para ajudar a fixar o conhecimento obtido durante as aulas. E não precisa nem ser um estágio em escritório de advocacia, contanto que você esteja em contato com o Direito na prática.

 

O estágio me ajudou muito durante a faculdade! Parece que acontece um “clique” no cérebro e tudo aquilo que antes era tão distante da sua realidade e meramente hipotético passa a fazer todo o sentido!

 

Dica nº 2 – Não estude na véspera da prova

 

Eu tenho uma regra pessoal de nunca, jamais, estudar NADA na véspera de uma prova grande (vestibulares, concursos e, é claro, a prova da OAB). Então, nunca tente aprender nada de última hora: não vai adiantar e só vai estressar você.

 

No máximo leia alguma ficha de resumo que você preparou durante seus estudos, para recordar. Mas eu não faria nem isso, porque pode ser que você se dê conta de que não sabe algum detalhe (e você nunca saberá tudo, acredite) e isso vai começar uma bola de neve de nervosismo que pode acabar gerando os temidos “brancos” na hora da prova.

 

Dica nº 3 – Tenha ajuda!

 

Esta dica não são todos que precisarão seguir. Muitas pessoas, as mais inteligentes e as mais regradas, conseguirão passar no Exame da OAB sozinhas, sem ajuda de ninguém. Não foi o meu caso…

 

Apesar de ter estudado durante a faculdade, eu estava extremamente insegura quando fui prestar a prova e eu precisei fazer um cursinho preparatório. A matéria a ser estudada era muito extensa e eu precisava de algo para me colocar no caminho certo.

 

Para a primeira fase, eu fiz um cursinho do tipo “reta final” telepresencial, durante apenas três semanas, em uma dessas grandes redes de ensino jurídico.

 

Lembro-me que poucos dias antes da prova houve uma aula especial, durante o dia inteiro. Essa aula contou com a participação de todos os professores e foi ministrada em um teatro. Eu assisti a transmissão ao vivo na unidade da escola da minha cidade. E foi horrível!

 

Os administradores da minha unidade eram péssimos e pouco se importavam com o bem-estar dos alunos. Colocaram um número enorme de alunos em uma salinha minúscula com um ar condicionado ineficiente. Ao final do dia eu estava esgotada! O esforço mental de estudar o dia inteiro, o calor e o pouco oxigênio disponível no ambiente (devido ao grande número de pessoas agrupadas em um ambiente pequeno e fechado), somados, resultaram em uma das piores experiências da minha vida.

 

Cerca de quarenta minutos antes do fim da aula, eu não aguentei… “Joguei a toalha” e fui embora. Não consegui ir para casa, pois estava sem transporte aquele dia. Fui para a casa da minha avó, que ficava a dois quarteirões de distância do cursinho. Cheguei lá, pedi “bença”, tomei uma água, lavei o rosto e deitei no sofá… Dormi por umas três horas! Acordei sem nem saber onde estava, mais ou menos assim:

 

"Que ano é este?"

“Em que ano estamos?”

 

Mas não posso reclamar muito, porque acabou dando certo. Acertei 60 das 80 questões da primeira fase. Claro que isso não foi possível somente devido ao cursinho. Tive o mérito também de ter estudado durante a faculdade.

 

Depois disso, tive um pouco mais de um mês para estudar para a segunda fase. Eu optei por prestar Direito Constitucional e não me arrependi. Adorei aprofundar meus estudos nesta matéria!

 

Como eu havia odiado o cursinho em que eu estudei para a primeira fase (não por demérito do curso em si, mas dos administradores locais), mudei de curso, para outra grande rede de ensino jurídico. Estudei muito, escrevi muita peça à mão e fiz incontáveis exercícios.

 

E deu muito certo. Dessa vez sim, o mérito de eu ter passado foi do cursinho e do meu estudo apenas durante este mês. Porque a faculdade não me preparou EM NADA para a parte prática do Direito (tive uma matéria de prática jurídica bem fraquinha e focada somente no Direito Civil). Eu não fazia a menor ideia nem de como começar a escrever uma petição.

 

Muitas pessoas me perguntam qual cursinho foi melhor, mas eu não gosto de responder isso. Porque todos os que eu conheci são muito bons! O diferencial mesmo é o quanto você estuda e se dedica.

 

4ª Dica (bônus) – Estude em casa!

 

Se você é como eu e prefere o conforto do seu lar para estudar (afinal ninguém merece ser enlatado igual sardinha como aconteceu comigo), gostaria que conhecesse o seguinte material preparado pelo advogado Dr. Bruno Sette: Material Completo para o Exame da OAB  (link patrocinado).

 

O Dr. Bruno está disponibilizando uma planilha gratuita (clique no link para baixar) para auxiliar nos estudos para o Exame de Ordem. Nesta planilha, você pode modificar o número de dias restantes até a data da prova e o número de horas que você pode estudar por dia.

 

Com essas informações, a planilha calcula automaticamente quanto tempo você deve se dedicar a cada matéria e, dentro de cada matéria, quanto tempo deve estudar doutrina, jurisprudência e legislação. É genial! Claro que você deve adaptar isso às suas necessidades, mas é um excelente ponto de partida.

 

Veja a resenha que escrevi sobre este material: Resenha – Material Completo de Estudo para Exame da OAB.

 

Estudar em casa para passar no Exame de Ordem

 

 

Lembre-se:

  • Estude constantemente e faça estágio durante a faculdade;
  • Não estude na véspera da prova;
  • Tenha ajuda!

 

Antes de você ir…

 

Deixe nos comentários a sua experiência com a prova da OAB, como você estudou, quais foram seus medos, como você superou… Vou adorar saber! E, se gostar do texto, compartilhe para me incentivar a continuar produzindo conteúdo.

 

E vamos estudar!

 

FONTES:

http://g1.globo.com/educacao/noticia/2012/05/vi-exame-da-oab-aprovou-ao-menos-um-candidato-de-cada-faculdade.html

http://blog.portalexamedeordem.com.br/blog/2014/10/xiv-exame-de-ordem-aprovou-2511-dos-candidatos-inscritos/

 

Crédito de imagens: Photl.

É errado advogado não cobrar consulta?

Alessandra Strazzi

Alessandra Strazzi

Advogada | OAB/SP 321.795

Advogada por profissão, Previdenciarista por vocação e Blogueira por paixão, Autora dos blogs “Adblogando“ e "Desmistificando". Formada pela Universidade Estadual Paulista / UNESP.

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É errado advogado não cobrar consulta?

 

Quando consultamos um médico, psicólogo, nutricionista ou qualquer outro profissional liberal, sabemos que teremos que pagar a consulta previamente e que, posteriormente, o tratamento terá novo custo. Já, com a advocacia, as pessoas parecem até ofenderem-se quando o advogado informa que cobra pela consulta.

 

Precisamos deixar claro para os clientes que advogado também precisa comer, vestir-se, pagar a prestação do carro, do aluguel e todos os custos operacionais do escritório! Afinal, somos seres humanos!

 

[Leia também: Modelo de intimação de testemunha pelo advogado (NCPC)]

 

É errado advogado (não) cobrar consulta?

 

A OAB/SP estabelece o valor de R$ 290,61 (valor para 2016) para uma consulta em horário comercial, com o acréscimo de 20 a 30 % se a consulta for fora deste horário. É muito? É pouco? Vamos discutir isso nos comentários?

 

Em alguns casos, realmente é complicado cobrar a consulta. Por exemplo, eu trabalho  muito com Direito Previdenciário e, na maior parte dos casos, os clientes são pessoas que não possuem qualquer renda e dependem dos meus serviços para poder obter um benefício que as permitirão viver com mais dignidade.

 

Ah, e se você, como a maioria de nós, ainda está perdido quando o assunto é o Novo Código de Processo Civil, recomendo que conheça o Curso de Atualização Sobre o Novo CPC (online), do Instituto de Direito Contemporâneo.

 

Possíveis soluções

 

Eu gosto muito de duas soluções:

 

  1. Cobrar pela consulta e se, em função da consulta, sobrevier a prestação de serviços, o valor da consulta poderá ser abatido dos honorários a serem contratados. Isso evita prejuízo ao advogado pois, muitas vezes, uma consulta jurídica já é suficiente para a pessoa resolver extrajudicialmente o seu problema e nunca mais aparecer no escritório. E o advogado que dedicou seu tempo e conhecimento àquele caso, fica a ver navios.
  2. Não cobrar pela consulta em casos excepcionais e cobrar uma porcentagem maior em caso de sucesso na demanda.

 

E vocês, colegas, o que pensam? Como resolvem este impasse? Compartilhe comigo nos comentários!

FONTE: Tabela de honorários OAB/SP.

Crédito de imagens: Pixabay.

Direitos dos animais: dever do Estado? Parte 1

Alessandra Strazzi

Alessandra Strazzi

Advogada | OAB/SP 321.795

Advogada por profissão, Previdenciarista por vocação e Blogueira por paixão, Autora dos blogs “Adblogando“ e "Desmistificando". Formada pela Universidade Estadual Paulista / UNESP.

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Direitos dos animais e bem-estar animal: dever do Estado?

 

Sou voluntária em uma ONG de proteção aos animais da qual minha mãe é presidente e, por isso, convivo diariamente com a crueldade e o abandono que sofrem esses seres. Isso me inspirou a escrever este texto, no qual pretendo responder, de forma simples, às seguintes perguntas:

 

1. É dever do Estado proteger os animais?
2. Maus-tratos aos animais é crime? Qual a consequência?
3. Os animais possuem direitos?

  • 3.1.  Não – interpretação antropocêntrica do Direito
  • 3.2.  Sim – interpretação biocêntrica do direito

4. Que ações posso utilizar para defender os animais?

5. Vigência do decreto 24.645 de 1.934

6. Minhas experiências de adoção de animais abandonados

 

Como o texto ficou bem grande, tive que dividi-lo em três partes. Leia:

1. É dever do Estado proteger os animais?

 

Sim, é dever do Estado proteger os animais, tanto domésticos quando silvestres. O dever do Estado de proteção aos animais possui fundamento na Constituição Federal, em seu artigo 225:

 

“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.

§ 1º – Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:

(…)

VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.”

direitos dos animais

 

2. Maus-tratos aos animais é crime? Qual a consequência?

 

Como consequência desta norma constitucional, principalmente da parte que destaquei em negrito, foi editada a Lei 9.605/98 (Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente)que tornou crime maus tratos aos animais. Veja:

 

Lei 9.605/98, art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:

Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.

§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.

§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.

 

Infelizmente, a pena é muito branda, o que permite ao autor do fato livrar-se do processo celebrando transação perante o Juizado Especial Criminal. Além da possibilidade maior de prescrição, pois quanto menor a pena, menor é o prazo de prescrição. Neste caso, o prazo prescricional é de 3 anos (para os juristas: prescrição da pretensão punitiva). Por isso, o que se vê, na maioria das vezes, é a impunidade do infrator.

 

O ideal seria que toda cidade possuísse uma delegacia e uma promotoria especializada na defesa animal. Entretanto, ainda estamos muito longe disso, infelizmente.

Direitos dos animais domésticos

 

3. Direitos dos animais: os animais possuem direitos?

 

3.1. Não – interpretação antropocêntrica do Direito

 

Os animais possuem, no plano teórico, um amplo sistema de tutela (proteção) jurídica. Entretanto, a legislação protetora funciona melhor para os animais silvestres que possuem função ecológica ou estejam sob risco de extinção. Os animais domésticos encontram-se em situação muito pior.Laerte Fernando Lavai, promotor de Justiça em São José dos Campos pergunta:

 

“Mas e os cães errantes que sofrem violência nas ruas? E as vacas e os bois torturados nos matadouros? E os gatos envenenados com estrecnina? E as galinhas que têm os bicos cortados nas granjas superlotadas? E os ratos submetidos a inimagináveis danos nos laboratórios de experimentação animal? E os cavalos chicoteados nas carroças? Como, enfim, tutelar os animais que não possuem qualquer relevância ambiental ou que não se encontram em risco de extinção?”

 

Se temos leis de proteção ambientais por que é tão difícil coibir a ação de pessoas que agridem, exploram e matam os animais? Isso ocorre ainda pela visão antropocêntrica da sociedade. Nesta perspectiva, é ao homem que a norma de Direito se destina.

 

Os animais são considerados, a partir de uma interpretação clássica do nosso sistema jurídico, objetos de direito e não sujeitos de direito. Para o Direito Civil o animal continua sendo coisa (propriedade particular ou da União); para o Direito Penal o animal é mero objeto material da conduta humana, e não vítima; e para o Direito Ecológico, via de regra, os animais são considerados recursos ambientais ou bens de uso comum do povo, imprescindíveis à biodiversidade.

 

Aliás, a Lei 6.938 de 1981 (que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente) diz claramente que os animais são recursos ambientais. Veja:

 

Lei 6.938/81, art 3º – Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:

(…)

V – recursos ambientais: a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora. 

 

Não sendo sujeitos de direito, os animais não podem possuir direitos. Logo, no nosso sistema jurídico, OS ANIMAIS NÃO TÊM DIREITOS, de acordo com a interpretação clássica do Direito.

 

Por isso, apesar de existirem leis de proteção aos animais contra crueldade, tais leis surgiram essencialmente porque tais práticas são socialmente repudiadas, e não porque os animais têm direitos. Ou seja, tais são voltadas para atender as necessidades os seres humanos.

 

Mas, nem tudo está perdido para os defensores dos direitos dos animais, como veremos na parte 2 deste artigo.

 

Leia a parte 2 deste artigo aqui: Direitos dos animais: dever do Estado? Parte 2

Leia a parte 3 (final) deste artigo aqui: Direitos dos animais: dever do Estado? Parte 3 (final)

 

FONTES:

Promotor Laerte Fernando LevaiO animal como sujeito de direitosDireitos dos Animais (tutela jurídica).

 

Crédito de imagens: Photl.

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